Passo a passo

Há projectos na vida que são assim como que uma espécie de maratona. Longos, duros, um verdadeiro teste de resistência e de carácter. Dizem que é das provas mais duras. Creio que sim. Porque depois do furor inicial da partida há a solidão de todo um caminho em que minuto a minuto, hora a hora, a firmeza que temos ou não temos é tentada e testada. Ali. Sozinhos. A correr. Passo a passo.

 

 

Bruges é a maratona da minha vida. Todos os dias. Em cada decisão. Certa de que ainda há muita estrada para andar. Nos dias em que o caminho que falta pesa mais do que o percurso já feito e naqueles outros em que me agarro ao que já consegui e me determino a olhar em frente. Passo a Passo. Todos os dias. Em cada decisão. Mesmo quando tudo nos dói. Mesmo quando nos faltam as certezas. Passo a Passo. Porque uma maratona não se ganha nem à partida nem à chegada. Mas todos os dias. Passo a passo. Em cada decisão.

 

 

Para a semana vou colocar a minha casa à venda. A primeira e única que tive [minha]. Aquela cujas obras foram projectadas por mim, aquela que levei dez anos a mobilar. Aquela onde estou e vivo. A minha casa. E quando pensamos que já não há decisão que nos abale somos forçados a lembrarmo-nos porque corremos. Bruges é a maratona da minha vida. Todos os dias. Em cada decisão. Mesmo quando tudo nos dói. Mesmo quando nos faltam as certezas. Passo a Passo.

 

 

* Se o arrendamento poderia ser uma solução. Talvez. A verdade é que não quero correr o risco de, daqui a um ano e meio, morrer na praia. Ter todos os requisitos reunidos e não conseguir ir por falta de verba. Colocar a casa à venda, numa época que não é a melhor bem sei, com calma e sem pressa durante um ano irá permitir-me depois de a vender liquidar o crédito hipotecário e, eventualmente, voltar a ponderar a hipótese de pedir um empréstimo para o montante em falta. Não sei se esta é a melhor saída. Sei que ninguém se desfaz da casa onde vive de ânimo leve. Isso eu sei. Continuo a vender o recheio. E à espera de um mecenas, também. Até lá deito a mão ao que tenho. É assim. Sem olhar [muito] para trás.